quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Preparando emoções





Ultimamente eu tenho ouvido ou lido frases bem interessantes sobre a culinária e o ato de cozinhar.

Num programa de televisão, um candidato de um reality show culinário, observou que descobriu que a audição é um sentido muito importante para quem cozinha. Ele quis dizer que a opinião daquele que saboreia o prato é fundamental para o desenvolvimento da habilidade de quem o preparou.

Isso fez-me pensar que o ato de cozinhar está muito longe de ser um ato solitário. Claro que o pode ser, por opção, mas ele ganha em sentido e ludicidade se tem um destinatário, a quem - ainda melhor - se quer agradar.

"O inferno é o lugar onde nada está sendo cozido e ninguém está esperando."

Como diz a minha querida amiga Inês, um prato não carrega somente os ingredientes usados na receita, mas a energia daquele que o preparou.



"Além disso, o ato de comer tem um sentido simbólico para o homem. Comer do mesmo pão, por exemplo, é alimentar-se juntos, é sinal de fraternidade e companheirismo. Daí a expressão com pão ter dado origem á palavra companheiro."

Preparar um prato pode ser um ritual tão sensual como escolher uma roupa para vestir-se ou despir-se para alguém. Um conhecido exemplo disso foi o narrado no filme Como Água para Chocolate, em que o contato sensual entre dois (não) amantes era através da comida que ela preparava.




"Talvez seja verdade que a vida é uma busca pela beleza, pela harmonia derivada da mistura das coisas. Talvez a vida seja a busca pelo sabor. Não apenas o sabor de um alimento, mas de um momento, de uma cor, de uma voz - o sabor do que podemos ouvir, ver e tocar."


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Contos dos Cantos do Mundo V



O óleo da vida

É muito comum, viajando na Europa, depararmo-nos com campos imensos de oliveiras, principalmente nos países que circundam o Mar Mediterrâneo.






As oliveiras são muito valorizadas  desde sempre, mas a colheita das azeitonas implica um bocado de sacrifício, pois são um fruto que não pode ser consumido diretamente , devendo ser antes beneficiado, e precisam ser colhidos durante o rigor do inverno.




Conta-se que foi "Atena, brigando com Poséidon pelo domínio, quem plantou  a primeira oliveira nas pedras da Acrópole, proclamando que era o fruto da civilidade. Um fruto como nenhum outro. Ela disse que a carne de uma azeitonas era amarga como o ódio e rara como o verdadeiro amor, que amaciá-la, espremer seu sangue verde-dourado, exigia esforço. A azeitona era como a vida e a luta por ela tornou seu óleo sagrado,  pois ele confortava e alimentava o homem do nascimento até a morte. E o óleo da deusa se tornou um elixir. Seus pingos doces e lentos nutriam o queijo de ovelha, uma concha fortalecia as cebolas selvagens cozidas em uma fogueira com gravetos. Queimado numa lamparina de barro, o azeite iluminava a noite e aquecia as mãos de um curandeiro, acariciava a pele de um homem cansado e de uma mulher em trabalho de parto. Ainda hoje, quando um bebê nasce nas colinas da Toscana, é lavado com azeite, pequenas doses esfregadas em cada uma de suas dobrinhas. Em seu leito de morte, um homem é ungido com esse mesmo óleo, sendo purificado de uma outra maneira. E, depois da sua morte, uma vela é acesa e seu corpo é friccionado com azeite, um banho de despedida. O azeite o acompanhou em todas as suas jornadas, exatamente como Atena havia prometido."



As oliveiras são árvores que vivem muitos anos. "São leais como as estrelas. Mas, mesmo quando estão juntas, são tristes, cada uma sozinha,com seu lamento primitivo. As mais velhas parecem torturadas, desajeitadas e grotescas. Como se tivessem guardado histórias demais, seu peito é fendido para revelar o coração valente. Mas até mesmo as mais jovens, ainda elegantes e ilesas, já carregam a marca de uma clara melancolia. Talvez as oliveiras saibam demais."