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sábado, 26 de novembro de 2011

Aqui, ali e acolá




Esse texto é da Melissa de Andrade, na Mon Quartier de setembro/2010, mas bem que podia ser meu, pois concordo com absolutamente tudo nele:

"Sabe aquela agonia de ir além, de sair do mundinho de sempre, vivenciar outros momentos, respirar outras vizinhanças? Permita-se. Viajar é a melhor coisa que existe. Viajar em livros, em filmes, na internet. Viajar pra cidade do lado, pra cidade lá longe, pra fora do país. De todo jeito é bom.

E que delícia se deixar flanar, perder-se em ruelas sem fim, achar peculiaridades que escaparam aos demais, guardar um pedacinho das terra nova  pra vida toda.Ou até quando importar. Porque não tem suvenir melhor do que as sensações que nos arrebataram e que permanecem vida afora, às vezes sem mudar muito, às vezes mudando bastante, às vezes até se esvaindo no tempo, tem nada não.

E que maravilha sentir um" momento uau", aquele em que o espanto de uma novidade garante um segundo de respiração suspensa, estupefação plena, os sentidos aguçados, visão, olfato, paladar. A certeza de que valeu a pena fazer todos os sacrifícios para estar ali. Experimentar uma conversa com sotaque novo, um jeito diferente de fazer as coisas, uma outra maneira de servir, de misturar os alimentos, de apresentar os lugares. De viver.

Tem gente que viaja sem nunca sair de casa. Tem gente que vive pra viajar, conta os dias pra próxima partida, numa agonia que parece não passar. Tem gente que gosta mesmo é de viajar numa sala de cinema. E tem gente que não dispensa a própria casa para viajar por páginas digitais ou analógicas.

Não importa. O que importa é que a viagem não para em si. Está presente na volta à rotina. Talvez principalmente na volta à rotina. É quando a casa ganha um outro significado, a rua da gente parece um pouco diferente, o dia a dia vai ser vivido de outro jeito. Numa viagem bem vivida, quem parte não é o mesmo que volta. O olhar muda. A perspectiva muda. É bom tirar proveito disso.

E aí o tempo vai passando e chega uma hora que pode vir a sensação de que tudo virou rotina de novo. Que tudo ficou igual de novo. Que a cabeça da gente só está nos afazeres, nos problemas, na rotina. Aí sabe o quê?  Aí talvez seja a hora de planejar uma nova viagem."

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Dica de quem entende II - Expectativas

Algumas questões são verdadeiramente desafiantes no que diz respeito às viagens, suas venturas e desventuras. Encontrei certa luz no texto de Alain de Botton, que dá alguma orientação para se desvendar parte desses mistérios. No livro A Arte de Viajar (Rio de Janeiro, 2003, Ed.Rocco), ele pondera:
“Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras da dinâmica dessa demanda – em todo o seu ardor e seus paradoxos – como nossas viagens. Elas expressam – por mais que não falem – uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. No entanto, é raro que se considere que apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões que exijam reflexão além do nível prático. Somos inundados de conselhos sobre os lugares onde devemos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir – se bem que a arte de viajar pareça sustentar naturalmente uma série  de perguntas nem tão simples nem tão triviais, e cujo estudo poderia contribuir modestamente para uma compreensão do que os filósofos gregos denominaram pelo belo termo eudaimonia ou desabrochar humano.”
(...)
“Estamos familiarizados com a idéia de que a realidade da viagem não corresponde às nossas expectativas. A escola pessimista, da qual Des Esseintes poderia ser patrono honorário, conclui portanto que a realidade deve sempre ser decepcionante. Talvez seja mais verdadeiro e mais satisfatório sugerir que ela é essencialmente diferente.”
De Botton narra como teria nascido – entre desventuras quotidianas, em pleno rigor do inverno – o desejo de uma viagem ao Caribe:
 “Circunstâncias climáticas dessa natureza, associadas a uma sequência de acontecimentos que ocorreram em torno dessa época (e que parecem confirmar a máxima de Chamfort de que um homem deve engolir um sapo todos os dias de manhã para se certificar de não topar com nada mais repugnante no dia que se inicia), contribuíram pra me deixar extremamente suscetível à chegada inesperada num final de tarde de um grande folheto, com belas ilustrações, intitulado “Sol de Inverno”. Sua capa mostrava uma fileira de palmeiras, muitas das quais crescendo inclinadas, na areia de uma praia orlada por um mar turquesa, tendo ao fundo montes onde imaginei cachoeiras e alívio do calor à sombra de árvores frutíferas de doce aroma.
(...)
Os responsáveis pelo folheto tinham tido a sinistra intuição de como transformar os leitores em presas fáceis por meio de fotografias cujo poder insultava a inteligência e desrespeitava toda e qualquer noção de livre-arbítrio: fotos super expostas de palmeiras, céus azuis e praias brancas. Leitores que teriam sido capazes de ceticismo e prudência em outras áreas da vida, em contato com esses elementos, revertiam a um otimismo e inocência primevos. Os anseios provocados pelo folheto eram um exemplo, ao mesmo tempo comovente e decepcionante, de como projetos (e até mesmo vidas inteiras) podem ser influenciados pelas imagens mais simples e incontroversas da felicidade; de como uma viagem prolongada e dispendiosíssima poderia ser posta em andamento por nada mais que a visão da fotografia de uma palmeira a se  inclinar levemente com uma brisa tropical.
Decidi fazer uma viagem à ilha de Barbados.”
Mais além, descreve a percepção de uma razão pela qual suas expectativas em relação à viagem não estavam sendo atendidas:
“Encontrei uma espreguiçadeira na beira do mar. Ouvia a meu lado sonzinhos de lambidas, como se um monstro simpático estivesse sorvendo pequenos gole de uma taça enorme. Algumas aves estavam acordando e começaram a voar em disparada com uma empolgação matutina. Atrás de mim, a cobertura de ráfia dos chalés do hotel aparecia entre os coqueiros. À minha frente, uma vista que eu reconheci do folheto: a praia que se estendia até formar uma curva suave na direção da extremidade da baía; atrás dela, montes cobertos pela selva e a primeira fileira de coqueiros inclinados de modo irregular na direção do mar turquesa, como se alguns deles estivessem esticando o pescoço para pegar um ângulo melhor do sol.
No entanto, essa descrição somente reflete com imperfeição o que ocorreu dentro de mim naquela manhã, pois minha atenção estava na realidade muito mais fragmentada e confusa do que o sugerido pelos parágrafos anteriores. Posso ter percebido algumas aves em vôo disparado em sua empolgação matutina, mas minha percepção delas foi diluída por uma série de outros elementos incongruentes e desconexos, entre os quais, uma dor de garganta que tinha surgido durante o vôo, uma preocupação por não ter informado a uma colega de trabalho que eu iria viajar, uma pressão que corria de uma têmpora à outra e uma crescente necessidade de fazer uma visita ao banheiro. Um fato importantíssimo, mas que até então tinha sido deixado de lado, se estava apresentando pela primeira vez: distraído, eu tinha trazido a mim mesmo para a ilha.”
Talvez seja muito difícil descobrir por que viajar, a fim de se evitar frustrações por expectativas não atendidas,mas aqui e alí vemos sinais de razões que não devem ser motivadoras de viagens... Uma delas: estar longe de si mesmo.    

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dica de quem entende - I

Essa eu lí  no 'Blog da Dri'. Pode parecer meio óbvio, mas é incrível a frequência com que isso acontece.
 
"Não procure um lugar no outro
Ricardo Freire

Um dos erros mais comuns em viagem é a gente ir para um lugar novo, mas procurando o conhecido. Ninguém está livre de passar por isso. Eu mesmo relatei há pouco como só fui entender Santiago depois que parei de procurar por lá as coisas de que gosto em Buenos Aires.
O Brasil, o mundo e a nossa curiosidade são grandes, então é natural querer sempre viajar para um lugar diferente. O jeito mais eficaz de não cair na síndrome do procurar-um-lugar-no-outro é não viajar a um lugar só porque você “não conhece ainda”. Vá a esse lugar porque você quer ver/experimentar tal, tal e tal coisas — de preferência, coisas que só existam naquele lugar. Quando você vai a um lugar novo só para aumentar o número dos lugares onde você já foi, o risco de decepção aumenta.
Isso é ainda mais comum nas viagens que não são propriamente “turísticas”, mas de descanso e recarregamento de baterias. Muita gente se dá muito bem com uma praia, um hotel, um resort — mas em vez de voltar e aproveitar de novo o que já foi testado e aprovado, não: encasqueta que precisa sempre ir a uma praia, um hotel ou um resort diferente. E então se arrepende porque não encontrou aquilo que havia no outro lugar.
Quantas vezes me perguntam aqui: ah, mas será que a piscina/animação/comida/praia do resort xis vão ser tão boas quanto as do resort ípsilon, de que gostamos muito? E eu sempre respondo: não há lei que obrigue ninguém a tirar férias cada vez num resort/hotel/praia diferente. Se você gosta muito de um lugar, experimente repetir. Hóspedes freqüentes são mais bem tratados — é fato.
E se você quiser mesmo trocar de lugar, siga a dica lá de cima: escolha não porque você “ainda não conhece”, mas porque você ficou muito interessado nessa, naquela e naquela outra coisa que parece haver lá (e não no lugar aonde você já foi)."