domingo, 31 de julho de 2016

Uma Longa Viagem


A maioria das viagens nascem duma centelha, um desejo não consciente, uma ideia ainda carente de forma.
Certa feita, em casa, assistindo o encerramento das olimpíadas de Londres, deslumbrou-me a homenagem aos voluntários, que colaboraram na realização daqueles jogos. Lembrando-me que os próximos jogos seriam no Brasil, desejei integrar o corpo de voluntários da Rio2016.
Assim como todo desejo, aquele  me deixou alerta para o momento que, ainda em 2014, foram abertas as inscrições para o voluntariado dos jogos olímpicos. Desde então, essa tem sido uma longa viagem, que começou com formulários e prosseguiu com testes, cursos, dinâmicas e avaliações.
Desde o primeiro momento, manifestei meu desejo maior de participar dos jogos de tênis, meu esporte preferido. Na semana do meu aniversário deste ano, recebo de presente a minha carta convite para ser assistente do local de competição no Centro Olímpico de Tênis.
Ao invés de parecer uma reta de chegada, aí que a verdadeira viagem começou: aceitação do convite, da escala proposta, cursos on line e presencial.
A ida ao Rio, para o curso presencial, incluiu o agendamento para o credenciamento e a retirada dos uniformes. Foi especial chegar à cidade e percebê-la se aprontando para o grande evento. Já se reconhece as inovações nas áreas de estruturas viárias, acolhimento de turistas e opções culturais e de entretenimento.
Entrar no Centro Olímpico pela primeira vez e ver os últimos ajustes para que as atividades tenham início fez lembrar alguém se aprontando para uma grande festa: o cuidado na apresentação, com o sentimento de antecipação da emoção de fazer parte dela.
Entrar na quadra central do Centro Olímpico de Tênis foi ver que o sonho estava se tornando realidade e se deslumbrar com a beleza que não encontrou paralelo nem mesmo na imaginação.
Retirar as credenciais e os uniformes possibilitou o encontro com os demais voluntários e o reconhecimento neles das próprias emoções, fazendo surgir um sentimento profundo de inclusão na recém criada família olímpica.
O momento agora é de expectativa. Os preparativos foram feitos, a casa está arrumada e os convidados estão pra chegar. Apesar de todo o caminho percorrido, a sensação é de que agora é que a viagem vai começar!!!








sexta-feira, 24 de junho de 2016

Contos dos Cantos do Mundo V - Os baobás


Os baobás são originários da África ( a maioria das suas espécies). Essas árvores gigantescas, que sobrevivem em ambientes muito áridos, tem uma capacidade incrível de armazenar em seu tronco até 120.000 litros de água!

Há várias lendas a respeito dos baobás, sua ancestralidade e sua história. Umas delas é a de que o formato de seus galhos representariam o sofrimento do povo africano, como braços estendidos para os céus, clamando pela piedade divina.

Mas a mais bonitinha conta que o  baobá teria sido a primeira árvore que Deus criou, ao lado de um lago. Quando Deus ia criando árvore de outras espécies, o Baobá olhava através do reflexo no lago e questionava cheio de inveja:

- Porque aquela árvore tem as folhas amarelas e eu não tenho?

Deus respondia que ele tinha sido o primeiro a ser criado e, por isso, era o mais querido, mas o baobá continuava a questionar e reclamar do que não tinha. Então, Deus teria se enfurecido e virado o Baobá de cabeça para baixo. O que ficou pra cima teriam sido as raízes e a cabeça do Baobá enterrada no chão.


Dizem que por isso as pessoas ficam embaixo do Baobá, a escutar seus conselhos. Ela seria a árvore mais antiga e todas as histórias do mundo estariam contidas no Baobá.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

BAIRRO ALTO Astral

Um viajante coleciona lugares onde ele se sente em casa. Isso acontece quando ele não precisa mais de mapas ou indicações para se achar. Basta a vontade de ir ou ficar.



O Bairro Alto de Lisboa tem gosto de casa. Daquelas que a gente não sabia a saudade que sentia até chegar lá de novo. Nos seus séculos de história cabe direitinho o recém chegado que vem de mansinho.



TEMPO - O tempo do Bairro Alto não corre. Lá não há grandes hotéis, mega lojas ou amplos restaurantes. O seu único superlativo é a vida noturna, mas ainda ela se desenrola através de microcosmos de alegria.

O jeito de lá viver não combina com a pressa. "O apressado apanha os acontecimentos antes de esses se definirem e serem claros. Por isso, o apressado age mal. Encontra-se com o destino antes do tempo. Encontra-se com a infância do destino e não com o destino já maduro."*

No Bairro Alto há "poemas seguros em cordas de pendurar roupas... Seria interessante poder verificar-se a consistência dos poemas como se faz com o pão. Tocar um poema como no pão para ver se está no ponto certo". No Bairro Alto, portanto, "o paladar está inclinado para a poesia",*

ASTRAL - No alto daquela colina há uma alegria calma por todo lado.



"Não apenas o ar... é oxigênio melhorado... É, por isso, de outro nível, é um oxigênio que balança entre o divertido e o surpreendente; um oxigênio traquina, quase infantil. Eis, pois, a atmosfera, o ar que se instala acima do solo"* no Bairro Alto, quando ali se flana a admirar os bucólicos jardins...





 os atraentes mercadinhos e cafés...





 os instigantes nomes de ruas e dizeres anônimos...




 ou ao voltar para sua pensão e  achar o seu pijama divertidamente arrumado a te esperar!



É por esse astral elevado, por essa tranquilidade repousante, por essa familiaridade cativante, que se deixa o Bairro Alto com um sorriso nos lábios, inspirado pela certeza de que a alma  fez uma boa visita  ao lar.


*Às vezes alguém traduz melhor em palavras os nossos sentimentos do que somos capazes.
Os trechos transcritos foram escritos por Gonçalo M. Tavares, a respeito de uma outra cidade, na Revista Up de maio/2016, mas serviram como luva para dar voz às minhas próprias impressões. Não foi eu que escrevi, mas quisera eu que tivesse sido!

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Aconchego das letras

Tem um tipo muito característico de pessoas: aquelas que gostam de livraria.

Essas pessoas não são necessariamente aquelas que gostam de ler. Tem pessoas que leem mais jornais e revistas e frequentam, por essa razão, as bancas de jornais. Outras pessoas aderiram totalmente aos e-books e nem saem de casa mais pra rechear seus e-readers.

Portanto, dentre o universo dos leitores, uma parte menor deles são pessoas que gostam de frequentar livrarias.

E tem mais uma característica típica deste tipo de pessoas: elas são muito parecidas em todo lugar. Nos mais diversos países, quando se entra numa livraria, encontra-se pessoas com um semblante semelhante. É uma fisionomia de paz e encantamento.

Imagino que o relaxamento venha do fato de ser um momento sempre positivo; porque a pessoa está à procura de um objeto do desejo, ou porque está em busca de resposta para uma questão, ou porque está aberto para ser capturado por uma curiosidade estimulante. Em qualquer destas situações, os livros parecem ser pequenos tesouros e as prateleiras parecem ser mananciais inesgotáveis.

Nas minhas andanças, cruzar com uma livraria qualquer rende, no mínimo, a diminuição da marcha, pra contemplar a vitrine. Em alguns casos, serviu para inspiração de programação, ainda que não tenha compreendido o idioma predominante. Sempre se pode recorrer ao inglês ou, qual criança, desvendar as imagens.

Mas, em algumas situações, a ida à livraria se tornou o ponto alto do passeio, por alguma razão especial que algumas delas vem a ostentar.

Estando no Porto - Portugal, fui conferir a beleza da Livraria Lello e o dono nos recebeu à porta, com as suas histórias e curiosidades do estabelecimento.






Visitei, em Londres, a Hatchard's (desde 1797), imaginando por ali Jane Austen, que era sua frequentadora.

oldshop


Estando recentemente em Curitiba, resolvi fazer o "Roteiro Paulo Leminski", um circuito que inclui lugares que ele frequentava na sua cidade natal. Por esta razão, cheguei à Livraria do Chaim.




Cruzando a porta, fui recebida pelo sorridente Sr. Aramis, de quem depois fui saber o nome. Ofereceu-me água, café ou chá, que poderiam ser conseguidos no andar de cima.



Voltando lá de cima, quando comecei a procurar uns livros, o Sr. Aramis me ofereceu um assento, sugestões, conselhos e ponderações. Mostrou-me um livro, recomendando a leitura de um trecho. Sorrindo me disse; "Você é um vagalume!"




Depois desse trecho, veio outro, mais tantas considerações e reflexões. Resolvi deixar os livros que havia procurado e levar o que ele me havia recomendado. Feliz com a notícia, acabou me presenteando ainda com mais um!

Deixei a livraria com a impressão de que o ponto alto do passeio foi conhecer  o Sr. Aramis Chaim. Na minha lembrança ficaram todas as suas sábias colocações e o trecho do livro que agora eu trazia comigo;

"Toda a psicologia da inveja está sintetizada numa fábula, digna de ser incluída nos livros de leitura infantil. Um sapo pançudo coaxava em seu pântano quando viu um pirilampo resplandecer no alto de uma pedra. Pensou que nenhum ser tinha o direito de exibir qualidades que ele próprio não possuiria jamais. Mortificado pela sua própria impotência, pulou sobre ele e cobriu-o com seu ventre gelado. O inocente pirilampo atreveu-se a peguntar: Por que me cobres? E o sapo, congestionado pela inveja, só conseguiu interrogar por sua vez: Por que brilhas?"
 (El Hombre Mediocre, José Ingenieros, publicado em 1913)



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Uma tarde no Café Trieste

Férias é aventura, sair da rotina, experimentar novos sabores, texturas, aromas e temperaturas.

O intuito das férias é viajar, ir pra longe, transpor fronteiras e abandonar-se a si mesmo. "Tchau myself, a gente se vê quando eu voltar".

Daí começam os planos, esquemas, programas e roteiros. Nem nos damos conta de que as férias são pra reenergizar e que o seu planejamento não pode ser mais rígido do que a rotina diária.

A grande descoberta para fazerem as férias serem, de fato, um descanso pra alma, é dar espaço pro acaso. Ter aquela folga de tempo na programação, pra encaixar um interesse inesperado, ou satisfazer a necessidade do 'dolce far niente'.

Minha estada em San Francisco, cidade em que já estive antes, teve o propósito de descansar das atividades que eu teria antes e depois dessa parada. Enquanto recobrava minhas energias numa estada lânguida e reconfortante, desvendaria melhor os mistérios dessa cidade tão instigante.

Foi assim que, num sábado, resolvi fazer, a pé, mais um trecho da Scenic Drive, um percurso demarcado na cidade, que fornece vistas gratificantes da região.




O movimento começou ao deixar o hotel somente ao meio-dia, como vinha sendo praxe nesses dias de descanso. Tudo corria muito lento e agradável.  A fome ainda não dava sinais e a temperatura era controlada pelo lado da calçada (com ou sem sol) que eu escolhia usar.

De repente, logo após passar por Chinatown, me deparei com o Café Trieste (! O imprevisto !). Na minha outra estada aqui, tinha passado em frente e tirado uma foto rápida, por ter me lembrado que era um lugar que Jack Kerouac costumava frequentar.




Decidi entrar e ficar, afinal era sábado e eu queria sentir a atmosfera do lugar.




A fome nem era tanta, mas como eu deveria consumir pra poder estar lá, pedi uma fatia de quiche e uma taça de pinot grígio.




Aos poucos, o lugar foi entrando em mim. Comecei a comer devagar, saboreando o vinho e reparando a vida que corria ao redor. Tinha gente só lanchando, tinha gente escrevendo...





...jogando xadrez...




...pintando...




Na jukebox tocou desde folk até tango argentino. Quando, animada pela segunda taça de pinot grígio...




...começou a tocar California Dreamin!

A Scenic Drive teve que esperar, porque eu gastei muuuitas horas no Café Trieste. Mas, afinal, férias (com F maiúsculo) não é isso? Acolher o acaso com carinho e gastar uma tarde de sábado num lugar especial?!?




PS - O bônus da tarde aconteceu quando Jeff, uma pessoa queridíssima, veio se sentar ao meu lado. Puxou conversa, dizendo que ia comer um bread pudding, que não era light nem barato, mas que era muito saboroso... Eu, então, querendo ser simpática, disse que era sábado e, portanto, extravagâncias podiam ser feitas.

Nesse momento, Jeff, meio surpreso meio divertido, me contestou, dizendo que, na verdade, "crazy things" devem ser feitas "e-ve-ry-day"!!! Segundo ele, esta é a razão de ele estar em San Francisco há trinta e cinco anos.

Segundo Jeff também, o Café Trieste está há esse tempo todo "do-mes-mo-jei-to". Partiu se desculpando, porque disse que eu parecia ser uma pessoa boa de fazer "crazy things with".





Jeff ficou na minha lembrança por muito tempo e me fez pensar no que eu havia lido, de que, na verdade, "San Francisco is a frame of mind".



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Beleza nas Alturas

Parece que a empatia que temos com os lugares que visitamos tem um pouco a ver com o meio onde nós fomos criados. Respondendo a uma entrevista do meu filho para a escola, ele me perguntou do que eu sentia falta da minha terra natal. Vieram-me à mente as montanhas.

As montanhas tem algo mágico, que talvez nos remetam a sentimentos ancestrais. Em visita ao Peru, soube que os espanhóis tiveram muita dificuldade em catequizar os incas, porque eles adoravam, entre outras coisas, as montanhas. Algum sucesso de inculcar o cristianismo entre  eles só foi alcançado quando começaram a apresentar imagens das santas com os mantos em forma dos cumes a que estavam habituados.

O encantamento pelas terras altas começa a surgir quando nos alçamos a qualquer altitude que nos permite ver um pouco mais além do que nosso horizonte habitual. Deslumbramo-nos com a ampliação de domínios das nossas visões, com a temperatura do ar que respiramos e até mesmo com a escassez de ar em algumas situações.  Intrigas-nos as matas fechadas que remanescem no alto das serras, o gelo que se acumula naquelas mais altas ainda e as nuvens que nos impedem de ver até onde vão em certos momentos.

O auge do meu encantamento pelas montanhas se deu na minha última estada no Chile, quando fui apresentar a neve às crianças. Tomados pela excitação das brincadeiras, terminamos por ficar na Cordilheira além do horário mais prudente para quem deveria enfrentar todas aquelas curvas na estrada abaixo.



Nesse momento, fomos surpreendidos pela beleza de algo que ainda não tinha me ocorrido: ver o pôr do sol lá de cima da Cordilheira.

 







quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O Outro Lado do Mundo - I

Tem experiências que são tão imensas ou grandiosas que se tornam difíceis de serem traduzidas. Assim tem sido com a minha viagem para a Austrália. Sem saber por onde começar, no caleidoscópio de experiências e lembranças, ainda não tinha conseguido trazer nada dessa viagem.

Pra quebrar a inércia ou viabilizar o intento, decidi criar uma série de posts falando dessa mega aventura no lugar mais distante onde estive.

Pra começar, a ideia de se viajar tantas horas, pra conhecer um país tão distante, não podia se concretizar sem uma boa companhia.




Depois, pra decidir como chegar lá, foi necessário um bocado de pesquisa pra escolher a forma menos desgastante. A escolha foi fazer o percurso no sentido oeste, via Santiago do Chile e Nova Zelândia, pela empresa aérea australiana Qantas.




Já tinha ouvido falar muito bem da Qantas e todos os elogios que lhe fizeram se mostraram inteiramente verdadeiros. Na medida do possível, eles fazem todo o possível pra fazer uma viagem tão longa ser o mais agradável possível.

Definida a chegada por Sydney, era necessário escolher os destinos num país de dimensões continentais. Nossos objetivos eram conhecer Sydney, a Rainforest, a Grande Barreira de Corais e estar em Melbourne durante o Aberto da Austrália de Tênis. Decidimos, então ficar na Costa Leste da Austrália.




A primeira descoberta da viagem foi que existe uma tal de "linha do dia" ou "linha internacional de mudança de data", que passa no meio do oceano pacífico. Quando se ultrapassa essa linha, avança-se para o dia seguinte. O prejuízo foi somente o de uma diária de hotel.




Foi assim que, depois de viajar dezessete horas de Santiago para Sydney, no sentido oeste, ou seja, quando se viaja contra o sentido horário, chegamos a Sydney no dia seguinte ao que tínhamos imaginado. Ao cruzar a linha do dia para oeste, soma-se 24 horas e, ao passar para Leste, subtrai-se um dia.

A primeira semana da viagem foi destinada para Sydney, que não é a capital da Austrália. A capital é Camberra, mas Sydney permanece sendo o local mais conhecido da Austrália.

Sydney é uma cidade tão agradável e bela, que até a pessoa mais avessa a fotografias não se cansa de registrar seus encantos. Imagine então as que já são bem chegadas num click!!








A Opera House e a Sydney Harbour Bridge, dois dos monumentos mais visitados da cidade, ficam um de frente ao outro e é difícil decidir qual o ângulo que mais os favorece.





A ponte ainda tem um outro atrativo turístico, que é escalar o topo da sua alta estrutura metálica.




Os vários parques são agradáveis vias de deslocamento pela cidade...




...agradáveis lugares para lanches e almoços...






 


...e lugares perfeitos pra fazer o exercício  necessário durante a viagem.





O sentimento de estar em Sydney é o de total encantamento. Cada dia, uma descoberta nova... ou a oportunidade de voltar aos lugares que imediatamente se tornam queridos!

Darling Harbour