domingo, 20 de fevereiro de 2011

Dica de quem entende II - Expectativas

Algumas questões são verdadeiramente desafiantes no que diz respeito às viagens, suas venturas e desventuras. Encontrei certa luz no texto de Alain de Botton, que dá alguma orientação para se desvendar parte desses mistérios. No livro A Arte de Viajar (Rio de Janeiro, 2003, Ed.Rocco), ele pondera:
“Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras da dinâmica dessa demanda – em todo o seu ardor e seus paradoxos – como nossas viagens. Elas expressam – por mais que não falem – uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. No entanto, é raro que se considere que apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões que exijam reflexão além do nível prático. Somos inundados de conselhos sobre os lugares onde devemos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir – se bem que a arte de viajar pareça sustentar naturalmente uma série  de perguntas nem tão simples nem tão triviais, e cujo estudo poderia contribuir modestamente para uma compreensão do que os filósofos gregos denominaram pelo belo termo eudaimonia ou desabrochar humano.”
(...)
“Estamos familiarizados com a idéia de que a realidade da viagem não corresponde às nossas expectativas. A escola pessimista, da qual Des Esseintes poderia ser patrono honorário, conclui portanto que a realidade deve sempre ser decepcionante. Talvez seja mais verdadeiro e mais satisfatório sugerir que ela é essencialmente diferente.”
De Botton narra como teria nascido – entre desventuras quotidianas, em pleno rigor do inverno – o desejo de uma viagem ao Caribe:
 “Circunstâncias climáticas dessa natureza, associadas a uma sequência de acontecimentos que ocorreram em torno dessa época (e que parecem confirmar a máxima de Chamfort de que um homem deve engolir um sapo todos os dias de manhã para se certificar de não topar com nada mais repugnante no dia que se inicia), contribuíram pra me deixar extremamente suscetível à chegada inesperada num final de tarde de um grande folheto, com belas ilustrações, intitulado “Sol de Inverno”. Sua capa mostrava uma fileira de palmeiras, muitas das quais crescendo inclinadas, na areia de uma praia orlada por um mar turquesa, tendo ao fundo montes onde imaginei cachoeiras e alívio do calor à sombra de árvores frutíferas de doce aroma.
(...)
Os responsáveis pelo folheto tinham tido a sinistra intuição de como transformar os leitores em presas fáceis por meio de fotografias cujo poder insultava a inteligência e desrespeitava toda e qualquer noção de livre-arbítrio: fotos super expostas de palmeiras, céus azuis e praias brancas. Leitores que teriam sido capazes de ceticismo e prudência em outras áreas da vida, em contato com esses elementos, revertiam a um otimismo e inocência primevos. Os anseios provocados pelo folheto eram um exemplo, ao mesmo tempo comovente e decepcionante, de como projetos (e até mesmo vidas inteiras) podem ser influenciados pelas imagens mais simples e incontroversas da felicidade; de como uma viagem prolongada e dispendiosíssima poderia ser posta em andamento por nada mais que a visão da fotografia de uma palmeira a se  inclinar levemente com uma brisa tropical.
Decidi fazer uma viagem à ilha de Barbados.”
Mais além, descreve a percepção de uma razão pela qual suas expectativas em relação à viagem não estavam sendo atendidas:
“Encontrei uma espreguiçadeira na beira do mar. Ouvia a meu lado sonzinhos de lambidas, como se um monstro simpático estivesse sorvendo pequenos gole de uma taça enorme. Algumas aves estavam acordando e começaram a voar em disparada com uma empolgação matutina. Atrás de mim, a cobertura de ráfia dos chalés do hotel aparecia entre os coqueiros. À minha frente, uma vista que eu reconheci do folheto: a praia que se estendia até formar uma curva suave na direção da extremidade da baía; atrás dela, montes cobertos pela selva e a primeira fileira de coqueiros inclinados de modo irregular na direção do mar turquesa, como se alguns deles estivessem esticando o pescoço para pegar um ângulo melhor do sol.
No entanto, essa descrição somente reflete com imperfeição o que ocorreu dentro de mim naquela manhã, pois minha atenção estava na realidade muito mais fragmentada e confusa do que o sugerido pelos parágrafos anteriores. Posso ter percebido algumas aves em vôo disparado em sua empolgação matutina, mas minha percepção delas foi diluída por uma série de outros elementos incongruentes e desconexos, entre os quais, uma dor de garganta que tinha surgido durante o vôo, uma preocupação por não ter informado a uma colega de trabalho que eu iria viajar, uma pressão que corria de uma têmpora à outra e uma crescente necessidade de fazer uma visita ao banheiro. Um fato importantíssimo, mas que até então tinha sido deixado de lado, se estava apresentando pela primeira vez: distraído, eu tinha trazido a mim mesmo para a ilha.”
Talvez seja muito difícil descobrir por que viajar, a fim de se evitar frustrações por expectativas não atendidas,mas aqui e alí vemos sinais de razões que não devem ser motivadoras de viagens... Uma delas: estar longe de si mesmo.    

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Vistas da cama

O Trip Advisor fez um ranking das dez mais sensacionais vistas de quartos de hotel. Essas foram as dez vencedoras:

10º lugar - Murren, Alpes Suiços



9º lugar - Western Cape, África do Sul



8º lugar - Niagara Falls, EUA


7º lugar - Arenal Volcano National Park, Costa Rica



6º lugar - Tokyo, Japão



5º lugar - Yulara, Australia


4º lugar - Rapallo, Riviera Italiana


3º lugar - Paris, França


2º lugar - Sedona - Arizona, EUA


1º lugar - Bora Bora, Polinesia Francesa



Well, todas as listas de "Top n about" são muito pessoais, mas, de fato, as vistas são incríveis.

Eu tenho minha própria vista da cama sensacional...


Torre del Greco - Costa Amalfitana, Itália

...Nada mal, hein?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Deliciosa Indecência

Todos os dias, quando passo pela Avenida Rui Barbosa, um sorriso me vem aos lábios ao me deparar com essa acácia. Ela fica à esquerda, quase na altura da Rua das Graças.

O incauto leitor poderia se perguntar o motivo da graça (com o perdão do trocadilho :-)...

É que é bela. É muito bela! As acácias florem em dezembro e já vamos pelo meio de fevereiro e os seus cachos continuam vívidos e pomposos.

Tamanho esplendor, numa ocasião em que já não se esperava tanto dela, faz-me achar que ela é mesmo exibida, chiliquenta, indecente!!

(...)

De tanto me impressionar com a bela acácia, decidi registrá-la. Vários dias se passaram sem que eu tivesse a oportunidade de lá ter com a máquina. Hoje, encontrei o momento perfeito...


... talvez alguém da Prefeitura tenha se inspirado nas acácias pra escolher a cor do uniforme dos garis!!!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Almas rebobinadas

Espantados com a engenhoca, os ignorantes (da tecnologia) argumentavam que as máquinas fotográficas podiam aprisionar a alma das pessoas.

Afastados os excessos de crendices e temores, vejo um fundo de verdade na crença que me faz pensar num ‘condicionamento’. Ainda que almas não possam ser aprisionadas na imagem, os momentos são de tal forma capturados pelas imagens oticamente solidificadas, que as almas são a eles (os momentos) rebobinadas, mediante um simples vislumbre.



Nenhuma explicação – longa ou até completa –  pode dizer sobre um momento como algumas fotos o fazem.

* Foto da Adriana.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dica de quem entende - I

Essa eu lí  no 'Blog da Dri'. Pode parecer meio óbvio, mas é incrível a frequência com que isso acontece.
 
"Não procure um lugar no outro
Ricardo Freire

Um dos erros mais comuns em viagem é a gente ir para um lugar novo, mas procurando o conhecido. Ninguém está livre de passar por isso. Eu mesmo relatei há pouco como só fui entender Santiago depois que parei de procurar por lá as coisas de que gosto em Buenos Aires.
O Brasil, o mundo e a nossa curiosidade são grandes, então é natural querer sempre viajar para um lugar diferente. O jeito mais eficaz de não cair na síndrome do procurar-um-lugar-no-outro é não viajar a um lugar só porque você “não conhece ainda”. Vá a esse lugar porque você quer ver/experimentar tal, tal e tal coisas — de preferência, coisas que só existam naquele lugar. Quando você vai a um lugar novo só para aumentar o número dos lugares onde você já foi, o risco de decepção aumenta.
Isso é ainda mais comum nas viagens que não são propriamente “turísticas”, mas de descanso e recarregamento de baterias. Muita gente se dá muito bem com uma praia, um hotel, um resort — mas em vez de voltar e aproveitar de novo o que já foi testado e aprovado, não: encasqueta que precisa sempre ir a uma praia, um hotel ou um resort diferente. E então se arrepende porque não encontrou aquilo que havia no outro lugar.
Quantas vezes me perguntam aqui: ah, mas será que a piscina/animação/comida/praia do resort xis vão ser tão boas quanto as do resort ípsilon, de que gostamos muito? E eu sempre respondo: não há lei que obrigue ninguém a tirar férias cada vez num resort/hotel/praia diferente. Se você gosta muito de um lugar, experimente repetir. Hóspedes freqüentes são mais bem tratados — é fato.
E se você quiser mesmo trocar de lugar, siga a dica lá de cima: escolha não porque você “ainda não conhece”, mas porque você ficou muito interessado nessa, naquela e naquela outra coisa que parece haver lá (e não no lugar aonde você já foi)."

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O novo, num novo ano

Lá se foi 2010 e começa um novo ano, que - parece-me - será auspicioso. Sinto que será melhor que o anterior. Comecei o ano experimentando uma novidade deliciosa.

Estava eu em São Vicente de Minas - MG e fui apresentada ao novo queijo Camenbleau. Ele é descrito como um "queijo de mofo branco e mofo azul, juntos (...)  mistura do mofo branco com o blue dinamarquês".  É uma mistura do Camenbert com o Rockefort ou Gorgonzola...



Duas coisas boas misturadas não necessariamente produzem uma mistura gostosa, mas, nesse caso, concordo que a ousadia fez nascer uns dos melhores queijos nacionais - uma “Obra Prima da Gastronomia”.

Sim! Faltou dizer que construíram um pórtico na entrada da cidade, onde se lê "São Vicente de Minas - terra dos queijos finos". Por essa e por outras, acho que estão fazendo por merecer... 

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Curiosidades a respeito dos vinhos - II

Carmenère

Essa eu já tinha ouvido quando visitava a ´Vinícola Concha Y Toro...

"Na encruzilhada de tempo entre os séculos 19 e 20, a praga filoxera devastava sem compaixão os vinhedos da Europa. Entre as cepas sobreviventes, já não se tinha mais a carmenère na lista. Era certa a extinção da uva. Sentença tida como verdade irreversível até meados dos anos 70. Nessa época, após testes motivados para investigar a tipicidade única dos vinhos supostamente feitos com Merlot no Chile, exames de DNA foram aplicados às videiras.

Ao francês Jean-Michel Boursiquot coube a descoberta: o que se tomava (literalmente) como merlot no Chile era, na verdade, a Carmenère. Uma ressurreição logo celebrada em taças mundo afora. Apesar de mudas já terem sido exportadas e a França hoje vinifique timidamente a varietal, o Chile é o único país do mundo com direito legal de ostentar a inscrição carmenère nos rótulos.
O que se deu? Se tecnologia e chuva desta vez não ajudaram, a natureza cuidou de fazer a sua parte. Com a Cordilheira dos Andes de um lado, o Oceano Pacífico no outro, o Deserto de Atacama ao norte e os glaciais ao sul, o Chile tem (se não a maior) uma das maiores proteções fungicidas e bacteriológicas naturais do mundo. A filoxera deu com a cara na porta – ou melhor, na cordilheira. Nunca chegou a encostar numa única videira. A carmenère havia chegado ao Chile no final do século 19, junto às outras cepas européias que deram origem à vinificação no país. E, por mais de setenta anos, permaneceu oculta. Hoje está mais do que evidente. Sobretudo dos vales do Rapel e do Maule, duas destacadas regiões de produção nacional.” (Revista Engenho de Gastronomia nº 12, jun/jul 2006)